Uma utopia carioca para quando a pandemia passar

“Podemos sorrir, nada mais nos impede…”. Foi com esses versos do Jorge Aragão que a roda de samba do Arco do Teles começou naquela sexta-feira. Aos poucos, começavam a chegar pelos becos em torno do bar pessoas de todos os tipos: alguns homens engravatados de pasta na mão, um grupo pequeno de mulheres com vestidos estampados e cabelos volumosos, gente jovem, gente não tão jovem assim. Sem falar, é claro, dos vendedores de bala e de amendoim no cone de papel, que passaram a custar R$10 a unidade (em outras épocas, era possível levar 3 deles por esse preço).

As mesas vermelhas de plástico, cortesia de alguma marca de cerveja, davam suporte aos copos que esvaziavam cada vez mais rápido. No mês de novembro já dava pra sentir um calor desses que dizíamos ser de verão, mas que agora parecia estar presente o ano todo, ficando um pouco mais sólido quanto mais perto estava o Natal. Aqui no Rio, o verão é quem faz o seu horário: já eram quase 19h mas o sol se recusava a ir embora.

Até mesmo a vida de um cachorro vira-lata que serpenteava de mesa em mesa melhorou de uns meses pra cá. Há um ou dois anos certamente não haveria ninguém por aqui para se compadecer do seu olhar morto de fome e lhe atirar pequenos pedaços de carne ou de outro petisco qualquer. Hoje, ao contrário, ele pode até se dar o luxo de ignorar a oferta quando o que é arremessado em sua direção não é um tipo de carne, mas sim batata frita.

O moral do carioca, aos poucos, estava sendo restaurado. Começou quando afastaram o bispo — e hoje, tirando aquele pessoal das igrejas, não tem quem diga que votou no sujeito. Ninguém sabe se está morto ou vivo, ninguém nunca soube, nem mesmo quando era ele quem dava as ordens por aqui.

Restaurado também parecia estar o ânimo de quem acompanhava a marcação do surdo de Waltinho, sambista conhecido no Centro e na Lapa, que por pouco não bate as botas, enfiado em um CTI, quando o bicho começou a pegar de verdade. Eu mesma achei que não ia ter jeito. Sabe como é… a boemia, ano após ano, vai degradando o sujeito. Mas, contrariando as estatísticas, lá estava ele ditando o ritmo da batida do coração de quem assistia e já não conseguia ver sentido em tanta cadeira espalhada.

De pé, como em um culto. Alguns de olho fechado e palmas das mãos viradas para cima. Alternando goles sedentos com um canto que vinha de longe, do fundo da alma, pra redimir o tempo de espera, de angústia, de silêncio. Sambando.

Foi anunciado que vai ter samba toda semana, faça chuva ou faça sol. Samba pra fechar a semana de trabalho, e há de ter trabalho: em dois meses, o barbudo assume a direção da coisa toda outra vez.

Jornalista de Niterói sobrevivendo diariamente ao golpe de 2016. Escrevo para marcar meu tempo nesse espaço.

Jornalista de Niterói sobrevivendo diariamente ao golpe de 2016. Escrevo para marcar meu tempo nesse espaço.