Que cabelo é esse?

Eu tinha trabalhado o dia todo, depois encontrado um amigo em um bar pra falar sobre mais trabalho e ia andando pra casa, pensando na ladeira que ia subir pra chegar até lá e no que ia comer, quando encontrei uma amiga. Abraços, beijos e então veio a pergunta: “Que cabelo é esse?”.

Em abril de 2016 eu decidi que não faria mais escova progressiva. Depois de mais de 10 anos de um estica e puxa caro, dolorido e perecível, eu estava afim de saber como meu cabelo real era. Eu havia esquecido.

A transição capilar é puro autoconhecimento. É a construção da aceitação da autoimagem, dia após dia, shampoo novo após shampoo novo. É passar mais tempo encarando o espelho e o calendário, desejando que o tempo passe mais rápido ou procurando a próxima lua crescente pra poder se livrar de outro pedaço de cabelo com química. Aqueles fios mais cacheados que apareciam primeiro no topo da cabeça e indicavam a hora de marcar horário no salão passam a despertar um outro tipo de impaciência: em vez de querer mascará-los, a gente quer que eles dominem logo o espaço que é deles por direito.

A transformação que fica visível por fora da cabeça não chega aos pés da que acontece por dentro. Eu não sabia de nada disso naquele dia. Só haviam passado 4 meses de uma jornada que durou quase dois anos. Naquele dia, como em tantos outros, eu não tentei disfarçar as múltiplas texturas que começavam a tomar conta da minha cabeça. Pelo menos naquele momento do dia, eu não estava preocupada em como meu cabelo estava sendo visto pelas pessoas. Talvez por isso eu não soube responder a pergunta dela. Mas hoje eu sei.

Fonte: Cacheia

Esse cabelo é fruto da união de pessoas que se amaram. É a herança do meu avô negro e da minha avó e seu cabelo tão liso, grande e preto que tinha gente que dava um jeitinho de puxar disfarçadamente, achando que era peruca. Até que ela resolveu cortar o cabelo bem curto, estilo Joãozinho, porque precisava chegar junto em casa trabalhando e o cabelo não podia ser uma função a mais. Isso lá nos anos 70. Por causa disso meu avô ficou puto e acusou ela de estar querendo “vestir as calças” e ser o homem casa, mas essa já é outra história.

Esse cabelo saiu da infância e do Johnsons Baby direto pro abismo, porque a indústria da beleza nos anos 90 e começo dos anos 2000 ignorava completamente a existência de cabelos que não estavam no padrão do comercial do Seda Ceramidas.

É um cabelo que, ao contrário da dona, sempre foi forte. Aguentou alquimias pesadas no banheiro, que envolviam uma gama imensa de produtos de qualidade duvidosa. Chegou a se envolver até mesmo com água oxigenada e amônia, porque ser loira e ter cabelo liso é que era bom. Pelo menos era isso que a Capricho e a Malhação diziam o tempo todo.

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Ele viu no alisamento japonês — no Jornal Nacional, na cabeça da Fátima Bernardes — a esperança de não ter mais que fritar o cabelo na chapinha. E partiu pro desconhecido atrás dessa tal liberdade. Um recondicionamento térmico que lhe arrancou uma mecha inteira e obrigou a franja a mudar de lado pra esconder o buraco que ficou. Definitivas, progressivas, agressivas. Até que resolveu parar.

Hoje esse cabelo vive solto. Não se prende mais ao que dizem que ele precisa ser: nem liso perfeito, nem cacheado perfeito. Ele não precisa ser perfeito, também não precisa ser feito, porque já nasce pronto. Meu cabelo é como uma bandeira que se levanta junto comigo todos os dias, vai balançando com o vento, orgulhoso, livre e ondulado. Uma bandeira feminista e política, porque ainda é uma afronta ousar ser feliz do jeito que a gente nasceu.

Foram dois anos aprendendo a lidar com meu cabelo enquanto ele me ensinava muito sobre mim. Por isso, na próxima vez que alguém perguntar “que cabelo é esse” eu vou responder: é o meu cabelo.

Jornalista de Niterói sobrevivendo diariamente ao golpe de 2016. Escrevo para marcar meu tempo nesse espaço.

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