Tenho artigos publicados no E-commerce Brasil, mas você não sabe disso

Não saberia nem mesmo se tivesse lido.

uma mão que escreve

O E-commerce Brasil se define como um portal de artigos e dicas sobre comércio eletrônico. É um verdadeiro hub de informações para quem tem ou trabalha para um e-commerce. Nesse último grupo, estão as agências de marketing digital, que prestam serviços como otimização SEO, anúncios, otimização de UX e coisas do gênero. Foi através de algumas dessas agências que eu tive a oportunidade de ter artigos publicados nesse site.

Se a essa altura você já teve a curiosidade de acessar tão renomado portal e está procurando meu nome, apresentação e foto com braços cruzados e expressão confiante na lista de autores, é provável que duas coisas estejam acontecendo: ou você já se cansou de descer a barra de rolagem infinita ou deve estar imaginando que estou mentindo ao afirmar que tenho artigos publicados no ECB. O que talvez não passou pela sua cabeça é que pode ser que uma grande parte dos sorrisos que estampam as fotos não são fruto da satisfação pelo artigo bem escrito porque bem… nem todo mundo que assina um conteúdo é o responsável pela criação do mesmo.

Ghost Writer 2.0

Na época em que escrevia artigos sobre empoderamento feminino para o Site Lado M, recebi da editora Companhia das Letras o livro Budapeste, de Chico Buarque. Fã que sou, logo me animei ao ver o nome de Chico na lista de obras disponíveis para resenha daquele mês. De início, a história não me animou muito. Confusa como o idioma falado na capital húngara (seria mesmo essa a intenção de Chico?). O fato é que somente vendo o filme, poucos dias atrás, consegui compreender José Costa, o protagonista.

Para quem não conhece a história, explico a parte que importa para que você me compreenda daqui em diante: Costa é um Ghost Writer. Trabalha em uma agência que produz conteúdos (livros, basicamente) que são assinados por terceiros. E são esses terceiros que ganham a fama e colhem os louros do sucesso das publicações. De uma forma meio estranha, José gosta desse anonimato, que garante a ele ser quem quiser. Tudo corre mais ou menos bem até que (agora começa o Spoiler) sua mulher, Vanda, diante do fracassado casamento dos dois, se encanta com o personagem de uma autobiografia — um alemão cujo nome me foge agora da memória. Mas o homem por trás dessa autobiografia era bem brasileiro, de nome comum: José Costa. Sente o drama.

Fico me imaginando no lugar de Costa. Realmente seria engraçado ver as pessoas em entrevistas, respondendo perguntas sobre uma realidade que eu criei enquanto ouço música para concentração no Spotify, enrolada no cobertor com o computador no colo, às 14:29 de uma terça-feira. Mas quando falo da minha profissão, de onde eu tiro o dinheiro para pagar inclusive a conta no referido serviço de músicas via streaming, a graça se perde.

Produção de conteúdo web: limites saudáveis, ética e outras coisas que o capitalismo ignora

Assim como Costa, concordo quase diariamente em produzir conteúdos que não serão creditados publicamente a mim. Já não sei dizer quantas blogueiras, redatores de sites de notícias e marcas se comunicaram com seus públicos através de mim, de alguma forma. Pouquíssimos deles tiveram o cuidado de colocar meu nome no fim do texto. Mas essa é a parte legal da produção de conteúdo. É assim que, como Costa, consigo me transformar em várias: já fui especialista em lavanderia, em dermatologia, em suplementos alimentares, tubos de aço (sim) e um mundo de coisas. Toda a pesquisa envolvida na produção dessas peças ainda está aqui comigo. Não se surpreenda se um dia eu falar sobre banda de rodagem no meio da conversa. Eu mesma, que não sei dirigir, não tenho carro e nunca, nunca mesmo troquei um pneu na vida.

Mas e quando o conteúdo é sobre a minha atividade fim? Quando eu escrevo sobre como escrever e não levo o crédito? Nesse caso, o objeto da troca não é o tempo dedicado à pesquisa, nem meus conhecimentos em língua portuguesa: é tudo aquilo que eu aprendi na profissão. Tudo aquilo que, em uma entrevista de emprego, eu digo ao recrutador. Qual seria o preço justo para vender um conhecimento adquirido por tantos anos, a custo de tanta coisa?

Rei sem reinado

o mais frágil, como no xadrez

Você também pode estar pensando agora que isso é normal e que, se eu concordo em vender um conteúdo, a pessoa que compra pode fazer o que quiser com ele. É possível que você esteja certo, sobretudo se você não trabalha com conteúdo. Acontece que, nas agências, geralmente o setor de conteúdo é o que ganha menos. Isso pode ser um reflexo da falta de investimento das empresas que são clientes dessas agências, ou não. Ao mesmo tempo que dizem “conteúdo é rei” aos 4 ventos, cobram entregas cada vez mais rápidas e querem pagar cada vez menos. É paradoxal: a importância do conteúdo é reconhecida, a procura por ele existe, mas ainda assim ele é cada vez menos valorizado. Quanto você pagaria para ter um artigo publicado em um site de grande alcance, levando seu nome, sua foto e principais referências? Se você soubesse o valor praticado no mercado, ficaria enojado.

Por que continuar?

Comecei a escrever muito antes de saber que o marketing digital existia. Bem antes de conhecer a cara de pau das pessoas, também. Por isso continuo. E também porque existem boletos para pagar e ainda não consigo me imaginar em outra atividade, apesar de uma parte de mim desejar isso. Para enfrentar tudo isso, escrevo.

Os links para os artigos publicados no ECB estão disponíveis aqui nessa publicação. Tem muitos outros conteúdos e muitos outros ainda vão ser postados, assim que eu tiver paciência. Se você tiver paciência, leia, deixe alguns claps. É legal ser reconhecida às vezes, mesmo sendo fantasma.

Jornalista de Niterói sobrevivendo diariamente ao golpe de 2016. Escrevo para marcar meu tempo nesse espaço.

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